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Here comes the story of the Hurricane!

Rubin “Hurricane” Carter foi um ex-boxeador peso médio no período entre 1961 e 1966, conhecido por travar uma longa disputa judicial ao ser preso injustamente por assassinato, faleceu no dia de hoje (20/04) aos 76 anos em sua casa, após uma luta contra o câncer de próstata.

“Quando eu entrei na prisão, recusei vestir aquelas roupas. Recusei comer aquela comida. Recusei o trabalho deles. e eu teria recusado respirar o ar da prisão se pudesse”.

Em 40 lutas como peso médio e favorito ao cinturão em 1966, ele conquistou 27 vitórias em uma promissora carreira que foi interrompida abruptamente aos 29 anos, quando foi preso injustamente. Hurricane e um amigo, John Artis, foram surpreendidos pela polícia quando andavam de carro, acusados por um assassinato de três pessoas em New Jersey. Duas testemunhas do homicídio no bar Lafayette Bar and Grill localizado na cidade de Paterson, confirmaram Hurricane e Artis como os autores do crime. Artis passou 15 anos na cadeia antes de obter sua liberdade, e Hurricane 19 anos até anulação da pena, ambos acusados pelo crime motivado por racismo.

“Eu nunca desisti. Não importa que eles me condenaram a três vidas na prisão. Eu não iria desistir. Só porque um júri de 12 pessoas desinformadas me consideraram culpado, eu não era culpado. E por isso eu me recusei a agir como uma pessoa culpada”, disse Carter, em uma entrevista em 2011.

Highlights Rubin “Hurricane” Carter

O episódio foi eternizado na música Hurricane, de Bob Dylan que inspirou-se a compor a canção em 1975,  depois de ler a autobiografia de Carter, The Sixteenth Round: From Number 1 Contender To  Number 45472.

Bob Dylan – Hurricane (1975)

Hurricane e Bob Dylan

Após uma campanha que contou com o apoio de estrelas como Bob DylanMuhammad Ali, Carter ganhou a liberdade em 1985 com a retirada do processo e a anulação da pena. Nos anos do julgamento, foram verificados diversas inconsistências nas acusações e controvérsias por parte da acusação, o juiz que cuidou do caso na época afirmou que conclusões sobre a prisão foram “com base no racismo e não na razão, assim como na ocultação da verdade”.

Quase trinta anos depois, em 1993, recebeu o Cinturão de Campeão de Peso Médio do Boxe, algo nunca concedido a um ex-lutador.

Em 1999, sua história ganhou as telas do cinema com um filme biográfico, “The Hurricane”, estrelado por Denzel Washington, retratando sua vida na prisão e como ele foi libertado pelo amor e compaixão de um fã adolescente do Brooklyn chamado Lesra Martin e sua família adotiva canadense.

The Hurricane – Trailer

Além do som do Dylan, e da trilha sonora a seguir, conta também com The Roots feat. Black Thought, Common, Mos Def, Dice Raw, Flo Brown e Jazzyfatnastees (isso tudo!) e Gil-Scott Heron!

Black Star – Little Brother

Ray Charles – Hard Times (No One Knows Better Than I)

Etta James & Sugar Pie DeSanto – In The Basement ( Part 1)

Após ser livre, Carter passou a lutar para ajudar pessoas que, assim como ele, foram condenados injustamente.

“Here comes the story of the Hurricane

The man the authorities came to blame

For somethin’ that he never done

Put in a prison cell, but one time he could-a been

The champion of the world”.

RIP Rubin “Hurricane” Carter 

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Postado por Fábio (Grilo)

 

 

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A cria e o criador? (Charles Bradley e James Brown)

Seguinte, aqui falaremos desse cara que é um monstro, sendo comparado com outro monstro! Cada um tem sua personalidade e sua importância, não que um seja mais importante que o outro… mas é que tipo, se um não existisse, provavelmente o outro também não! Tá confuso? Espera que vamos te explicar!

Charles Bradley (64 anos), tem em suas performances e estilo de gravação consistindo com os padrões revival da gravadora com a qual trabalha (Daptone Records), celebrando o sentimento da música funk e soul das décadas de 60 e 70. Demonstrando claramente as influências de James Brown, Sam Cooke e Otis Redding (tendo inclusive sido dito que ele ecoa a rendição evocativa de Otis Redding, FÓDA não é?)

Dá a impressão que o som desse cara foi gravado nessa década, e que foi completamente abandonado e esquecido no tempo até ser descoberto hoje! Uma parada oldschool!

Se liga no FEELING

Bradley foi criado por sua avó na Flórida até os 8 anos, viveu boa parte da sua infância nas ruas, quando conheceu sua mãe que o convidou para morar com ela no Brooklyn (Nova York). Em 1962, sua irmã o levou ao Apollo Theater para assistir um show de James Brown. Bradley ficou alucinado, aquilo mudou sua vida, sem piscar um minuto vendo o Rei do Soul arregaçando tudo e sendo ovacionado, e de tão inspirado pela apresentação começou a imitar em casa o estilo de James Brown cantar e dançar, e disse: “Eu também quero fazer isso aí e quero ser fóda! (e ter uma capa, talvez!)”

Na adolescência, Bradley fugiu de casa e foi morar nas ruas e em metrôs durante 2 anos. Trabalhou em bares, aprendeu a cozinhar e um tempo depois se alistou em um programa gratuito de educação e estímulo vocacional do governo, assim levando-o para trabalhar em um restaurante como cozinheiro-chefe. Certa vez enquanto estava trabalhando algum mano lhe disse que ele parecia com James Brown, ainda assim quando questionado se sabia cantar teve medo de admitir (aquele cagaço né?). Finalmente superou esse medo e fez cinco ou seis shows com uma banda, que acabou se separando quando os colegas de Bradley foram convocados para a Guerra do Vietnã.

“Venho me apresentando como James Brown, Otis Redding e Sam Cooke desde 1968”, conta. “Agora estou aprendendo a ser eu mesmo. É mais difícil, porque muitos momentos nas minhas letras me deixam sentimental, me fazem pensar nas coisas que estou falando. Estou cantando verdades da minha vida.”

Bradley continuou no seu trabalho de cozinheiro em um hospital para doentes mentais por 10 longos anos, até decidir se mudar atravessando o pais como caroneiro. Percorreu por Nova York, Seattle, Canadá e Alasca antes de finalmente estabelecer residência na Califórnia, onde trabalhou em empregos temporários e se apresentou em pequenos shows durante 20 anos (porra, faz as contas do quanto ele foi paciente, até aqui mais ou menos 30 anos!!!)

Quando em 1996, perdeu o emprego e decidiu retornar ao Brooklyn para ficar perto da sua família. Com o dinheiro que economizou, Bradley encheu um caminhão com seus equipamentos musicais, comprados ao longo dos anos, para novamente tentar a sorte como músico. Fez várias apresentações em clubes locais como sósia de James Brown usando o apelido Black Velvet. Durante esse período, passou por maus bocados, inclusive quase morreu em um hospital depois de ter recebido uma injeção de penicilina (da qual é alérgico) e acordado com a chegada da polícia na cena do assassinato de seu irmão na rua da casa de sua mãe!

Black Velvet

Durante suas apresentações como Black Velvet foi descoberto pelo co-fundador da Daptone Records, consequentemente sendo apresentado à Tom Brennek, que o convidou para os ensaios de sua banda. Bradley disse pra banda ir tocando seus instrumentos enquanto simplesmente ia improvisando letras durante as músicas (manja quase nada!). Depois de Bradley escrever algumas músicas, a Daptone lançou algumas delas em vinil começando em 2002, dez foram escolhidas para o seu disco de estréia: No Time For Dreaming (2011). Foram por volta de 45 anos imitando James Brown, deixa ele mostrar o som DELE agora!

(Observação: Ah, a banda? The Menahan Street Band, grupo de funk/soul experimental do Brooklyn, com músicos de outras bandas como Antibalas, El Michels Affair, Sharon Jones & The Dap-Kings e da Budos Band, só nome pesado!)

“Todos nós viemos da vida dura das ruas. Então, vendo-os (se referindo a seus ídolos), aprendi a não perder a esperança, que um dia aquilo poderia acontecer comigo, que eu encontraria meu caminho. Demorou, mas finalmente aconteceu.”

Na primavera de 2012 foi lançado Soul of America, um documentário dirigido por Poull Brien, que conheceu Bradley quando dirigiu o videoclipe para a música “The World (Is Going Up In Flames)”. O filme conta a história de Bradley desde sua infância na Flórida, passando por seus dias de mendigo e seus shows como Black Velvet, o filme termina com sua primeira turnê e gravação do disco pela Daptone Records. O segundo disco de Bradley, Victim of Love, foi lançado em 2 de abril de 2013 ainda pela Daptone Records.

Trailer: Soul of America (2012)

The World (Is Going Up In Flames)

E ele fez show por aqui na Virada Cultural de 2012!

Depois de saberem da história desse cara, escutem um pouco para terem noção realmente do que estamos falando, ele se entrega, ele é apaixonado pra caralho, ele destrói, ele chora, ele dança:

Charles Bradley and The Menahan Street Band (Full Performance – Live on KEXP)

Charles Bradley and The Menahan Street Band – This Love Ain’t Big Enough (Live in Paris 07.2011)

Love Bug Blues

Obrigado Charles Bradley, pela persistência!

Postado por Fábio (Grilo)